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:: post 98 - Está todo mundo resignificando tudo!

Por Celso Faria em 24.06.2007 : : 22h14

Fico impressionado como alguns termos tomam conta do vocabulário das pessoas. Rapidamente alastram e quase todo mundo passa a usar. Não importa o nível cultural. E o hit do momento é a tal busca pela “resignificação”.

Vi também muitos termos passarem a ser usados com muita freqüência no meio acadêmico. Sou da época em que tudo era “uma releitura” ou “revisitação a fulano de tal”. Não líamos mais Freud, Lacan ou quem lá que fosse, “revisitavamos os seus estudos”. Isso significava que estávamos investigando o tal pesquisador, mas procurando novas interpretações. Uma pergunta me ficava: não seria este o papel de qualquer intelectual?

Agora estão resignificando tudo! Desde materiais do mundo físico aos sentimentos. “Resignificamos o uso da madeira”, falaram ao meu lado dia desses. Outro já disse: “procuro uma resignificação da minha relação amorosa”. Assim, estavam todos procurando um novo sentido pra tudo. (E não estou aqui querendo entrar numa outra questão: a diferença entre sentido e significado.)

Pronto! Tudo estava dito e ninguém mais falou nada. Entre os dois amigos acima, fiz cara de respeito e suspirei. Como devemos fazer com os que discutem um assunto profundo!
 
E fico cá pensando sobre estes tais termos. Eles nascem e tornam o hit de uma hora pra outra. E como isso é freqüente nas universidades! Diga-se de passagem, se fiquei com alguma neurose nessa vida, foi exatamente daquele jeito intelectualizado e pra lá de irritante do meio acadêmico. Principalmente, de como alguns termos passam a ser usados a três-por-quatro nos debates e nas discussões. 

Por isso, acho que preciso também de resignificar muitas coisas na minha vida diária e tirar esses ranços trazidos de algum canto. Mas o que precisamos é ser originais e compreender que o significado, sem dúvida, é sempre construído. Ou melhor, nada está definitivamente significado em nossa vida.

Como já disse alguns psicólogos, significados são construídos o tempo todo. Nenhum deles está totalmente pronto, não é estável. Por isso, se alguma coisa temos mesmo que fazer não é resignificar coisa alguma, apenas caminhar ou mergulhar no rio dos significados. Se me permitem copiar o filósofo Heráclito, tal como não é possível banhar duas vezes no mesmo rio na vida, também não é aceitável acontecer o mesmo no mundo dos significados.

Por isso, se encontrou novo significado, você apenas o ampliou. O restou é lorota. E essa é uma boa oportunidade para todos nós resignificarmos a tal resignificação.

8 Comentários:

  1. Por Amigo:

    Boa noite, Celso.

    Como diria Cecília Meireles:

    “Mas a vida, a vida, a vida,
    a vida só é possível
    reinventada”.

    Parabéns pelo seu texto! Mostra o significado de porque acessar este site.

    Abraços a todos =)


  2. Por lucas:

    Celson,

    Você diz que “nada está definitivamente significado em nossa vida” e eu concordo, claro!

    Paulo Freire disse que o mundo não é mundo, está sendo.

    Diante disso, como explicar a dificuldade que seres pensantes, esclarecidos, cultos, etc têm em compreender que é possível alguém deixar de ser gay? Não estou dizendo deixar de ser relacionar sexualmente com alguém do mesmo sexo, mas deixar de desejar tal relacionamento? John Gagnon deixou uma entrevista brilhante na Veja de abril do ano passado. No livro Uma Interpretação do Desejo, Gagnon dá um show sobre o tema. Lembremo-nos que Focault bebeu de Gagnon e bebeu muito!

    A única explicação que vejo é que as pessoas não querem entender… é mais confortável ignorar, rotular, difamar.

    Que pena!

    Sem o conhecimento, a socidade tendo à barbárie. E não vão adiantar Paradas e leis para fazer o óbvio: educar!

    Abraços e parabéns pelo texto.

    lucas.1910@hotmail.com


  3. Por lucas:

    Leia-se: “se relacionar”, “tende à barbárie” e “Foucault”


  4. Por Amigo:

    Boa tarde, Celso.

    Muito me intrigou o comentário feito por Lucas, principalmente, quando questionou: “Como explicar a dificuldade que seres pensantes, esclarecidos, cultos, etc têm em compreender que é possível alguém deixar de ser gay?”

    Não entendi o motivo exato para o levantamento desse assunto, mas acredito que, apesar de “nada está definitivamente significado em nossa vida”, os significados que vivemos nos deixam marcas e algumas irreversíveis. Ao mesmo tempo em que Lucas expõe a possibilidade de não ser mais gay, se contradiz logo em seguida ao afirmar: “Não estou dizendo deixar de se relacionar sexualmente com alguém do mesmo sexo, mas deixar de desejar tal relacionamento?”

    Ser homossexual se restringe à relação sexual? Como alguém, que se relaciona sexualmente com uma pessoa do mesmo sexo, não é homossexual? Mesmo tendo lido alguns aspectos da obra de Freud, de Lacan, de Foucault, não sou psicólogo e, por isso, é incompreensível para mim essa tentativa de se afirmar como heterossexual, porém sem conseguir se “libertar” do suposto estigma de ser homossexual, em um processo de mutação no qual não se sabe precisar o resultado humano final.

    Gostaria de sair do universo dos que não conseguem compreender o “deixar de ser gay” e encontrar argumentos realmente plausíveis que explicariam essa manipulação do desejo. Desejo não ser gay, acordo heterossexual. Como um passo de mágica, como uma bela fábula de La Fontaine.

    E, assim continuo, disposto a obter explicações, pronto para ser reeducado.

    Abraços a todos =)


  5. Por Celso Faria:

    É interessante ver o texto tomando um caminho nao pensado por mim, porém muitíssimo justificável. Obrigado pelas opiniões e vamos aplicar este monte de teorias de psicólogos, filósofos etc na nossa vidinha normal. (O diminutivo não é pra dizer que a vida é menos, apenas para percebermos que ela é isso, quase nda, “uma gota no tempo que não dá um segundo”.) Se não ficaremos apenas no falatório. E como sempre digo aqui, nao sou especialista a nada, só me meto a falar da nossa vida diária, do cotidiano.


  6. Por Amigo:

    Boa Celso,

    Não concordo com sua visão de que a vida seja uma “gota”. Se para experimentar todos os sentimentos e as sensações dependo dessa gota, então se torna o meu próprio mar. A vida é simplesmente frágil e breve, mas é tudo o que tenho. Confesso que adoro um falatório e, principalmente, se for sobre divagações tantas…rs.

    Admiro quem ao ver uma pedra, percebe que, de repente, no meio do caminho tinha aquela pedra, que essa não é uma qualquer, mas a de Drummond. Não apenas isso, que a pedra não é concreta, mas figurada e representa um problema. Entretanto, que todo problema é assim: removível, com a possibilidade de ser lançado para bem longe de nossa vida, para o fundo desse imenso mar.

    Abraços a todos =)


  7. Por Amigo:

    Boa noite, Celso… =)


  8. Por Arthur Muller:

    Celso, suas abordagens em temas polemizantes são ótimas. Pelo que já tive oportunidade de ler o que escreve nesta site.
    Parece-me que você não só uma mente pensante e questinadora, porém com excelentes citações e embazamentos teorícos de uma pessoa que sabe não apenas escrever bem, mas com o toque da classe intelectualizada de gays que existem em Brasília.
    Adoro sempre o seus questinamentos e colocações.
    Além de informações de vida atual gay das cidades do centro-oeste, temos uma pessoa de contéudo nessa equipe do Paroutudo.
    Continue sempre colocando boas matérias.
    Parabéns você ganhapu mais um leitor.
    Um grande abraço!!!


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